domingo, 20 de junho de 2021

na noite de quinta para sexta, eu sonhei que tinha doado uma cachorra para a Ana Maria Braga e, mesmo após vinte anos da doação, eu permanecia a visitando. ela estava imponente e bem cuidada, sentada elegantemente em uma escada consideravelmente precária para os padrões de Ana Maria Braga.

na verdade, não foi na noite da última quinta para sexta. também não foi na noite de quinta para sexta da semana anterior, mas da retrasada.

era para eu ter feito esse texto logo após o sonho. não consegui. eu deixei o tempo passar e a introdução que queria colocar, falando que, na noite de quinta para sexta, eu sonhara que tinha doado uma cachorra para a Ana Maria Braga perdeu todo sentido.

foi particularmente frustrante dar a cachorra para a Ana Maria Braga, porque, de todas as celebridades, a última que eu tinha curiosidade de conhecer a casa - ainda que em sonho - era a da Ana Maria Braga. talvez porque o programa matinal dela simule uma casa e imagino que a decoração seja semelhante ao cenário. preferia que fosse uma Cissa Guimarães, que certamente tem uma casa com sala de meditação e deve ser adepta do feng shui.

eu também me decepcionei bastante comigo, que, em sonho, desfez de uma companhia a outra pessoa. justamente eu, que tenho já tão poucas companhias, barganhou como se fosse nada. meu inconsciente nem tentou arranjar uma desculpa para a doação. simplesmente aconteceu. apareci subitamente na casa da Ana Maria Braga, em uma escada simplória e a cachorra estava lá. sentada. ela nem pulou em mim ou demonstrou felicidade ao me ver. se bem que eu também não faria questão de me levantar e cumprimentar alguém que se desfez de mim, ainda que essa pessoa me visitasse por vinte anos - ou, pelo menos, quero acreditar que não me levantaria ou cumprimentaria alguém que se desfez de mim, mesmo me conhecendo o suficiente para saber que o faria.

e foi, ainda mais, angustiante não conseguir sequer relatar um sonho que consiste, unicamente, em visualizar um animal a sua frente e sentir o peso das consequências das próprias escolhas. a cachorra lá, parada, no alto da escada e eu inerte. assim foi, passou o primeiro dia e eu não fui capaz de narrar ou elaborar minhas atitudes. no segundo, eu ainda acreditei que tinha tempo e talvez pudesse voltar no sonho para buscar o animal abandonado. e, no dia seguinte, não havia mais interesse em contar um devaneio de noites anteriores. e a cachorra lá, parada, no alto da escada e ainda esperando que eu assumisse a responsabilidade de cuidar dela.

tem um lado agridoce na espera. tem a impaciência, um possível descaso do acaso do tempo e, muito provável, uma completa desorganização do médico que deixa o paciente aguardar por horas a consulta. mas ela exige a confiança de que algo retorne, como um bumerangue. ninguém permanece na sala, se o médico sai e dá claros indícios de que não irá voltar. a espera é egoísta, porque se fundamenta na lei do retorno, e é altruísta, quando percebe que a noção de tempo não é autocentrada.

já deixei algumas mensagens pendentes, compromissos de trabalho e esse texto. não consegui fazer. não teria sentido voltar. o retorno requer uma orientação, que eu tenha um norte e um sul. mas ainda permaneço parado na escada. e a cachorra lá, parada, sem entender se eu estou de chegada ou de partida.

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