domingo, 9 de novembro de 2014

selfie no espelho convexo e outros reflexos que eram melhor desconsiderar

Você pode ligar a TV
ou perambular pela 3G.
Colocar as pernas para o ar
e fingir que está a ler,
mas não tem como livrar você de você.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

o que plínio arruda diria?

Estávamos parado na porta da faculdade, quando uma moça chegou perguntado se poderia aplicar um questionário. Ela disse que estava no último período do curso de Ciências Sociais e um de seus professores pediu que entrevistasse universitários sobre as eleições de 2014.

Eu, como boa pessoa preconceituosa que sou, já ansiava por um discurso apaixonado de esquerda, algo que arrebatasse multidões e instalasse uma novíssima revolução bolchevique.

Não, não foi desta vez que vi meus sonhos socialistas realizados. A entrevistadora leu um questionário pré-fabricado, não dominava a matéria e, quando uma das pessoas que estava na roda disse votaria na Luciana Genro, ela desconhecia a candidata.

É por isso que eu, indignado, fiz essa lista com as três opiniões que considero as mais estúpidas quando o assunto é política.

1. Político é tudo igual.
Além de ignorar o fato de que uns políticos podem sim ser piores que os outros, essa generalização acaba por desconsiderar o caráter democrático que (supostamente) há nas eleições. Se está ruim, candidate-se e pare de jogar no colo dos outros a responsabilidade pela gestão pública.

2. Eu não voto em quem está perdendo.
Isso é confundir eleições com o Programa Tentação do Sílvio Santos.
http://youtu.be/pfhPRtBb4p8?t=25s

3. Voto em X só para tirar Y do poder.
Esse discurso parece mais justificativa para dia de paredão no BBB.
Você pode não votar na Dilma porque ela não cumpriu com a reforma política que prometeu em 2010, pelos plebiscitos que não fez ou pelos escândalos políticos que não soube contornar. Mas essa campanha de "Vote em qualquer partido, menos no PT" é pura ignorância política.
Você pode não votar na Marina pela sua incoerência partidária, suas propostas em relação ao mercado financeiro ou pelas reviravoltas em seu plano de governo.
Você pode não votar no Aécio por seu aeroporto particular ou por ter governado Minas, enquanto tomava um bronze na praia de Copacabana.
O mínimo que se deve fazer como eleitor consciente é propagar o ódio com um pouco de embasamento teórico.

domingo, 28 de setembro de 2014

crase em crise

às vezes, eu me perco na preposição
troco uma vírgula e não respeito a exclamação.
às vezes, eu me perco na trilha do cedilha
e, meio zonzo, passo entre os dois pontos.
às vezes, eu caio no vocabulário
perco meu itinerário
e, perto de você, começo a gaguejar.

domingo, 20 de julho de 2014

álbum de família

Meu pai comprou uma dessas câmeras fotográficas que, aparentemente, conseguem focalizar todos os seus poros. Uma fortuna que poderia salvar um país do terceiro mundo, mas que foi empregada numa máquina que tira fotos conceituais da pobreza nos países de terceiro mundo.

Meu pai sempre foi fã das fotos. E nós, os filhos, éramos as cobaias nas fotos de meu pai. Tudo virava motivo para ele ir tirando a câmera e pedir por um sorriso - mesmo que a gente não quisesse sorrir. Hoje, ele diz todo orgulhoso que minha irmã mais velha, quando tinha menos de seis meses, possuía mais de quinhentas fotos. É um feito impressionável, de fato. O que me ocorre é tentar imaginar o que meu pai fazia enquanto não estava tirando fotos ou revelando as já tiradas.

Nas fotos de infância, eu vejo as festas de aniversário, os bolos e balões, as amizades que não tenho mais contato. Mas nada de meu pai. Eu imagino que, por trás das lentes, deve ser tudo muito sozinho. Enquanto as pessoas sorriem e choram, andam e fazem pose, o fotógrafo sempre fica com os dedos a postos esperando focalizar os rostos.

Eu tentei avisar para ele que tem coisas que a câmera não captura, mas creio que o flash já o cegou.

domingo, 29 de junho de 2014

resta um.

No campo de batalha que é a internet, eu imagino o mouse como uma espada e o teclado é meu escudo. O resto da humanidade é o inimigo, que você pode abater ou transformar em seu aliado na medida em que aprende a se comunicar. Você pode se dar ao trabalho de responder a mensagem com uma epopeia ou simplesmente mandar um emotion.

Dia desses, enquanto usava o celular, eu, acidentalmente, adicionei uma desconhecida no Facebook. Pensa no número de gravidezes indesejadas que seriam evitadas se o touchscreen não ficasse marcado por digitais e travasse ocasionalmente?

Eu não gosto e nem confio em quem diz ter mais de mil amigos. Você pode até se deparar com algumas dezenas de pessoas com as quais realmente goste de conviver, mas não milhares. Desses mil conhecidos, uns não te cumprimentarão na rua, outros podem nem lembrar o seu nome e, talvez, quem realmente se importa ficará mesmo só com as bordas.

No Facebook,
seus amigos ficam amontoados,
compactados na lista de contatos.
Uns justapostos aos outros
e as fotos ficam perdidas.
- Você teve notícias daquela sua amiga desde menina?
- Nem sabia que hoje morava na Bósnia e Herzegovina.

domingo, 15 de junho de 2014

Comprei um relógio de ouro para meu amor
parcelado
como presente de dia dos namorados
e fui trocado.

sábado, 14 de junho de 2014

Tem gente que acha um charme
quem, quando sorri, forma covinhas.
Eu penso:
"Será que vão gostar de mim
e dos meus pés-de-galinha?"

quinta-feira, 6 de março de 2014

bach também treme o bumbum

Eu gastei duas horas escolhendo roupa, andei lentamente quase quatro quarteirões para chegar no bar menos soado e paguei dez reais em uma bebida que consistia em metade gelo e duas gotas de vodca para, então, ter que ver alguém posar sua intelectualidade com "eu não assisto televisão".

A história: em uma mesa de desconhecidos, não restou outra alterativa para conversa que não comentar sobre um seriado qualquer que passava no SBT. Foi neste momento que um dos participantes revelou não assistir televisão - não era tanto uma constatação, mas mais uma declaração que pretendia deixar implícita: "eu não assisto televisão, pois tudo nela me subestima".

Algumas reações podem dimensionar a questão:
1. Herege.
2. Qualquer entrevista estonteante da Susana Vieira demonstra claramente o contrário.
3. Um discurso do Pedro Bial sobre como estar alienado dos programas de auditório não é pressuposto de sabedoria. Para concluir você poderá analisar a amplitude do conceito de inteligência - que por vezes é confundido com capacidade de absorver e decorar informações. Não que tudo e o tempo todo na frente do aparelho seja proveitoso, mas seria desconsiderar o poder de observação e crítica dos outros espectadores. O problema deste discurso do intelecto é reduzir o bom gosto ao meu gosto.

Eu só não levantei e fui embora, pois já tínhamos pedido uma porção de batatas fritas e eu teria de pagar de qualquer jeito.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

alohomora


Cara J. K. Rowling,

Eu compreendo que você não retorne minhas ligações e talvez te presentear com uma mandrágora não tenha sido realmente uma boa opção. Mas me vi obrigado a insistir com esta correspondência, que tenho alguns questionamentos que podem ser interessantes para uma possível continuação de Harry Potter.

1. Os encantamentos de segurança que protegem Hogwarts podem causar interferência na wi-fi do castelo?

2. A Hermione não poderia projetar o vira-tempo para um futuro próximo, no qual já estivesse graduada, em vez de ser obrigada a assistir todas as aulas?

3. Não foi uma decisão precipitada enamorar o Rony e a Hermione? Talvez eu seja um pouco egoísta da minha parte, mas ficaria um tanto quanto desconfortável ao ver meus únicos amigos discutindo a relação enquanto tudo que eu queria era uma cerveja amanteigada. Talvez também o Harry realmente estivesse ocupado tentando não morrer nas mãos do Voldemort ou fundando a Ordem da Fênix e não ligasse muito para isso.

4. Quando as meninas vão tirar foto no espelho do banheiro, a Murta Que Geme aparece na imagem?

5. Não existe a possibilidade de uma produção atacadista da penseira? Evitaria tantas chaves perdidas. Seria bom também um chapéu seletor particular para aqueles momentos em que estou com fome, mas não sei ao certo o que pretendo lanchar.

Atenciosamente.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

fora d'água

Eu prefiro pensar que ser do signo de Peixes, com ascendente em Peixes e lua em Peixes seja um acontecimento raro na astrologia. Mesmo que eu não acredite no horóscopo, sou egoísta o suficiente para por minhas crenças de lado se fazem de mim uma pessoa especial nesses sete bilhões de umbigos.

São sete bilhões de umbigos enlatados em doze categorias. São sete bilhões de umbigos e uma frase de cinco linhas escrita na coluna da Capricho é capaz de definir como será o dia de todas elas. São sete bilhões de histórias, mas basta o dia e a hora do nascimento para que todas elas estejam impreterivelmente decididas.

A fim de provar em uma metodologia científica que signo não é determinismo, até separei uma amostragem de celebridades do signo de Peixes seguida de uma breve descrição:

1. Javier Bardem: ele realmente aparenta encaixar no perfil dos "românticos, sonhadores e sensitivos" ou eu que assisti muito Vicky Cristina Barcelona.
2. Regina Casé: muvuca.
3. Renata Sorrah: ensinou em plena televisão brasileira que "pegação na rua não dá nem pro café mixuruca" e conquistou o Brasil.
4. Cindy Crawford: torço para que exista um signo para ela e outro exclusivamente para sua pinta.
5. Kelly Key, Justin Bieber, Rihanna, Marjorie Estiano, James Blunt, Thiaguinho, Timbaland, Luan Santana: certamente é um signo que não contribuiu positivamente para o cenário musical.

Conclusão: ocasionalmente, a culpa pode ser das estrelas.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

para amores imaginários

não sabia qual era a sua esquina e virou a errada
sem saber por onde andar, ficou paralisada.
não podia dançar com os pés voltados para trás
e depois teria de ouvir:
"você foi de todas a melhor pessoa que eu não conheci".

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

bridget jones

Querido diário, hoje eu não acordei tão cedo quanto queria e não cumpri com as obrigações que deveria.
Querido diário, creio que fiquei perdido no meio do telefone sem fio.
Querido diário, se eu te relatar minuciosamente o meu dia, cada respiração e cada migalha, cada tecla digitada, você seria capaz me compreender?
Querido diário, por mais que eu me expresse, você está fazendo uma leitura errada de mim.
Querido diário, segure minhas lágrimas, organize minhas falas e releve minhas falhas.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

o pequeno príncipe

Foi bom enquanto durou, mas cansei de ser adulto. Eu fui alocado nesta categoria por mera formalidade técnica. Ao completar 18 anos, não te dão outra escolha. Você automaticamente acorda no meio das conversas de adulto e tem de posicionar sobre a alta do petróleo, a queda do dólar e outras oscilações não tão empolgantes quanto as do carrossel.

A maior das vantagens na infância é não ter que se preocupar muito com consequências. O senso de responsabilidade de uma criança restringe a saber que, se exagerar a intensidade na jogada da queimada, a vingança do oponente será proporcional. A matemática era simples, sem segregações pelo diagrama de Venn ou aflições em exponencial.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

os eunucos também amam.

Lord Varys te convida para um jantar.

Se a fama precede o homem, eu devo começar a me preocupar com o que ronda nas minhas nas biografias não-autorizadas. Estava numa festa quando comentaram comigo: "Mateus, eu queria tanto que você não fosse assexuado". Assim, em nove palavras, meu sex appeal fora mundialmente desdenhado e vi minha promissora carreira no Clube das Mulheres ir água abaixo.

Minhas reações imediatas ao comentário foram:
1. O "eu queria" indica um sujeito e um objeto (eu).
2. O "tanto" revela a intensidade deste anseio.
3. Fiquei lisonjeado com as duas primeiras pontuações.
4. O assexuado pressupõe total aniquilação em desejo sexual, uma completa caracterização da Virgem Maria. Eu aceitaria - mas não de bom grado - se considerassem minha sexualidade como reprimida, até porque toda sexualidade é socialmente repreendida ou teríamos o maior número de casamentos com ares-condicionados. Mas não reduzida ao pó, que ser assexuado é uma forma de não expressar a sexualidade. Ela existe, mas você prefere mantê-la no depósito, junto com a esteira ergométrica que você promete um dia usar.

Até que tentei responder, mas não há remédio para os rumores espalhados. Só me resta divulgar vídeos pornôs em cinquenta ou mais posições sexuais e torcer pelo melhor.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

armazém

dizem que as melhores histórias não cabem em versos
e depois só sobram molduras vazias e retratos rasgados.
a dor que menos se espera vem do lado,
todo romance é romântico até terminar em abraço.
agora com o dobro de cama, mas peito dobrado
disfarço o passo e passo depressa olhando sem olhar.