domingo, 20 de julho de 2014

álbum de família

Meu pai comprou uma dessas câmeras fotográficas que, aparentemente, conseguem focalizar todos os seus poros. Uma fortuna que poderia salvar um país do terceiro mundo, mas que foi empregada numa máquina que tira fotos conceituais da pobreza nos países de terceiro mundo.

Meu pai sempre foi fã das fotos. E nós, os filhos, éramos as cobaias nas fotos de meu pai. Tudo virava motivo para ele ir tirando a câmera e pedir por um sorriso - mesmo que a gente não quisesse sorrir. Hoje, ele diz todo orgulhoso que minha irmã mais velha, quando tinha menos de seis meses, possuía mais de quinhentas fotos. É um feito impressionável, de fato. O que me ocorre é tentar imaginar o que meu pai fazia enquanto não estava tirando fotos ou revelando as já tiradas.

Nas fotos de infância, eu vejo as festas de aniversário, os bolos e balões, as amizades que não tenho mais contato. Mas nada de meu pai. Eu imagino que, por trás das lentes, deve ser tudo muito sozinho. Enquanto as pessoas sorriem e choram, andam e fazem pose, o fotógrafo sempre fica com os dedos a postos esperando focalizar os rostos.

Eu tentei avisar para ele que tem coisas que a câmera não captura, mas creio que o flash já o cegou.

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